Silêncio, que se vai cantar o fado

Nascido em Lisboa, o fado é hoje considerado património nacional. As chamadas “casas de fado” tentam preservar o seu espírito original, apesar do cliente português ser cada vez menos uma presença assídua. O ID foi conhecer algumas.

Texto e imagens de Pedro Espadinha e Sofia Antunes

 

A Severa
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Aberta desde 1955, a Casa de Fado A Severa permanece na mesma família há 61 anos. Alexandrina Dominguez, neta dos proprietários e atual responsável, fala um pouco sobre a história deste restaurante: “O espaço foi aberto pelos meus avós a 20 de outubro de 1955. Foi aberto por eles, eles já vinham de uma casa que existia, a Adega Machado. A minha avó era cozinheira e o meu avô chefe de sala. Como vinham de uma casa de fados sabiam como funcionava e quiseram abrir uma também.”

Conhecida por servirem pratos tradicionais da gastronomia nacional, A Severa permite aos clientes experienciarem um serão tipicamente português: “É uma casa familiar. Tentamos dar uma comida tradicional, não é gourmet, e acompanhamos com o fado. A minha avó é transmontana e sempre teve uma cozinha muito caseira, feijoadas e cozidos, iscas e bacalhau.”

Mas a comida não é a única coisa que atrai os clientes. Eric e Isabelle Mandron, turistas franceses, de visita pela primeira vez ao nosso país, não poderiam estar mais felizes com a experiência vivida n’A Severa. “Está a ser muito bom, o fado é um romantismo. A música é muito bonita, às vezes triste, mas muito profunda”, diz Eric. Com um sorriso no rosto, Isabelle confessa: “viemos pelo fado. A comida foi uma agradável surpresa”.

Às 21h tem início o espetáculo. As luzes são completamente apagadas e apenas as velas, dispostas individualmente em cada mesa, conferem à sala um ambiente taciturno mas, ao mesmo tempo, acolhedor.

Natalino de Jesus é um dos fadistas que marca presença todas as noites n’A Severa. Nascido e criado num bairro típico português, desde muito novo começou a ouvir, a apreciar e a cantar fado.

Contando já com 31 anos de carreira, Natalino deu os seus primeiros passos n’A Severa: “Este restaurante foi dos primeiros em que cantei, há 31 anos atrás. Saí, cantei em quase todas as casas de fado de Lisboa. Regressei 11 anos depois, faço os meus espetáculos fora, no estrangeiro, mas regresso sempre, sou artista residente aqui na casa.”

Quando questionado sobre o que tem o fado de especial, Natalino revela prontamente que “o fado é uma coisa que nós não conseguimos descrever, mas que se sente, exatamente como o amor. Os estrangeiros não entendem, mas sentem que é um tipo de música diferente, que vem da alma. Às vezes, até choram. Se lhes perguntarmos se perceberam, eles dizem que sentiram a emoção com que estávamos a cantar. Eles não percebem o poema, mas sentem a emoção da música”.

De modo geral, o feedback dos clientes – maioritariamente estrangeiros – que por aqui passam não podia ser melhor e a prova disso é que vários deles voltam para repetir a experiência. “O boca-a-boca é a melhor publicidade que podemos ter e, como estamos há muitos anos nisto, é normal que apareçam aqui pessoas pela segunda, terceira e quarta vez. Há muitos anos, um casal que passou a lua de mel em Portugal tirou uma fotografia em determinada mesa. Há um tempo voltaram cá e tiraram uma foto na mesma mesa, agora acompanhados dos filhos”, diz Alexandrina.

A dinamização do turismo nos últimos anos levou a que muitas destas casas se adaptassem a uma nova realidade, ainda que sem nunca perderem a sua essência, a essência de uma casa onde se come à portuguesa e se ouve o fado. “Hoje em dia trabalhamos essencialmente com turistas, porque o fado não é barato, foi o caminho que se foi desenhando. Temos que sobreviver, a porta está aberta e entra quem quer. Mas os portugueses têm cada vez menos dinheiro e aparecem cada vez menos”, confessa a proprietária, já num tom que não deixa de transparecer algum desalento.

O Faia

Três rua acima encontra-se O Faia, um espaço algo diferente do anterior, de características modernas, ainda que sem perder aquilo que o define como restaurante tipicamente português.

Adjacente à entrada do estabelecimento encontra-se uma espécie de sala de convívio, onde se reúnem os artistas, antes e depois das atuações, onde aproveitam para beber um copo ao balcão e conversarem entre si ou para simplesmente relaxarem, antes de entrarem na sala de jantar onde os clientes jantam e aguardam pelas atuações.

Mas como teve início este espaço? “O espaço foi fundado em 1947, pela dona Lucília do Carmo, mãe do Carlos do Carmo”, conta Pedro Ramos, o gerente. “Era muito pequeno, albergava entre 20 a 30 pessoas. Entretanto, começou a ficar cada vez mais popular e o espaço foi crescendo para as dimensões que tem hoje, com capacidade para cerca de 100 clientes. A casa ficou na posse da dona Lucília e do Carlos do Carmo até 1980, altura em que a venderam. Foi comprada por um senhor chamado José Casais, um empresário do ramo da distribuição de bebidas. É nessa altura que vem trabalhar para aqui o meu pai, como barman. Depois, nos anos 90, acabámos nós por ficar com o espaço, até aos dias de hoje.”

O espaço sempre foi uma casa de fados, sendo que, “desde 1947, há fado todas as noites, exceto ao domingo”, mantendo-se como uma referência do seu género devido também ao elenco que atua habitualmente durante a semana: “Temos aqui a cantar todas as noites a Lenita Gentil, a Anita Guerreiro, o António Rocha e o Ricardo Ribeiro. Portanto, são nomes de peso, são nomes conhecidos do grande público, o que faz com que consigamos ser uma casa de fados que atrai muitos clientes nacionais. Não dependemos unicamente da quantidade de turistas que ocupam os hotéis da cidade.”

A comida é também um aspeto crucial do serviço prestado, contando com uma carta essencialmente portuguesa: “Temos muito cuidado com aquilo que servimos aos clientes porque, quando se tem clientes portugueses que vêm ouvir o nosso elenco, temos a responsabilidade de estar a servir pessoas que sabem exatamente com o que é que se conta, como é a comida portuguesa. Há coisas que todos os espaços têm em comum, mas se podemos falar em pormenores, coisas que podem fazer a diferença, acho que é isso que nos pode diferenciar um pouco dos outros.”

Já no que toca ao feedback recebido por parte dos clientes que frequentam o restaurante, Pedro não tem dúvidas de que é bastante positivo: “Quando eles entram novamente pela porta é sempre muito bom sinal. Mesmo com os turistas, isso vai acontecendo. O melhor feedback que temos é voltar a ver a mesma cara a entrar no restaurante”, afirma o proprietário.

Dois grandes nomes do fado, António Rocha e Ricardo Ribeiro, são membros de um elenco notável, que marca presença assídua no restaurante. Cantando desde muito novos, os dois artistas têm visões opostas sobre o fado, mas que, ao mesmo tempo, se complementam.

“O fado para mim não tem nada de especial, o fado para mim é como respirar”, diz António. Já para Ricardo o fado é “uma forma de estar, uma maneira, uma forma de se viver. O fado é particular porque é um fenómeno que acontece. O fado pode acontecer ou não.”

Ambos têm uma relação bastante próxima com o restaurante. “Eu tenho uma relação com O Faia muito especial, as primeiras vezes que vim ao Faia tinha 19 anos”, diz Ricardo, que acrescenta: “Para além de ser o sitio onde trabalho, é um sítio que eu gosto”.

António, por sua vez, diz que “este restaurante trabalha muitíssimo bem, tem uma boa cozinha, tem um bom staff, tem um elenco – tirando-me a mim – de excelência”. António já trabalha há 20 anos no restaurante e já conta com 60 anos de carreira. “Não me arrependo”, diz prontamente.

A reação dos clientes, essa, é sempre favorável: “Recebemos imensas mensagens de turistas que vêm aqui e que põem na Internet mensagens maravilhosas, a dizer muitíssimo bem de tudo. Aqui dizem sempre parabéns e que gostou muito”, confessa Ricardo. “Gostámos muito, do ambiente”, sublinha um casal de brasileiros, de passagem por Lisboa. “Foi muito bom (o espetáculo), os dois guitarristas são bons, mas o fadista é ótimo.”

A Tasca do Chico

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Num estilo completamente diferente dos espaços anteriores, A Tasca do Chico, tal como o próprio nome indica, é uma casa de fados atípica. O proprietário, Francisco Gonçalves, que dá o nome ao espaço, é o grande obreiro de um dos pontos de referência do Bairro Alto e de Lisboa.

O senhor Chico, como é amavelmente conhecido, conta como tudo começou: “Era um bairro de prostituição, como toda a gente sabe. Só havia casas de prostituição e casas de fado. E depois aquelas casas de fado eram aquelas casas consagradas como A Severa, O Faia, Lisboa à Noite, Adega Mesquita, O Forcado. Em 1996 abri a Tasca, ao contrário do que estava a acontecer no Bairro Alto que era tirarem as tascas e transformá-las em bares modernos. E estava-me a custar. Eu fiz o contrário e as pessoas, minhas amigas, mais velhas, diziam: Epá, oh Chico então? Estás a rumar contra a maré! Mas continuei e algumas pessoas começaram a passar por aqui e a gostar. Isto começou a andar e, 20 anos depois, felizmente, a Tasca já é conhecida em quase todo o mundo. Chova ou faça frio, está sempre cheio”, diz, com um sorriso rasgado.

É notória a quantidade de fotografias e molduras que preenchem o espaço, de uma ponta à outra, grande parte delas de personalidades famosas, desde atores, músicos e, inclusive, fadistas. E muitos desses artistas, que estão agora imortalizados nas paredes do estabelecimento, nunca deixam de dar um saltinho à tasca, de vez em quando: “A Mariza, minha amiga, de vez em quando está aí. Tal como passa cá o Camané, como passa o Ricardo Ribeiro, como passam, sei lá, todos eles. Eles gostam de vir aqui e gostam da tasca. Eles é que apadrinharam a tasca e ajudaram, de certa maneira, a tasca a crescer.”

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Apesar de ser um espaço pequeno, é um sítio “acolhedor, informal, mas, ao mesmo tempo, íntimo”, contam Ingrid Reiter e Evelyne Wininger, duas turistas austríacas, que decidiram ouvir pela primeira vez fado. “Gostei muito do chouriço assado”, diz uma delas, em alusão àquela que é uma das especialidades da casa, juntamente com o caldo verde. “Os estrangeiros adoram estar a queimar o chouriço, tirar fotografias com o chouriço a arder”, diz o gerente.

Os clientes, esses, continuam a ser maioritariamente estrangeiros.  “É com alguma tristeza que eu digo isto, mas não se fala português até às 22h”, confessa Francisco.

Não obstante, uma das grandes diferenças entre a Tasca do Chico e as outras casas de fado assenta precisamente numa ideia: aqui canta quem quer. Amadores ou profissionais, são todos bem-vindos a entreterem-se a si e a entreter a casa: “As pessoas têm que aprender que estas casas de fado, as tascas e as coletividades é que dão oportunidade aos jovens de começarem a cantar.”

“Outra coisa engraçada é que, para além de ter malta jovem, também tenho aqui pessoas que ninguém quer, com 70 anos. Essas pessoas saem de casa para vir cantar o fado. Tenho um senhor com 92 anos que vem cá todos os dias. Com 92 anos! Tem ali o banquinho dele, come uma sopinha e uma sandes, canta dois fadinhos e vai-se embora.”

 

São estas casas que tentam salvaguardar a essência do fado e que dão vida à noite lisboeta, tentando mostrar às pessoas, independentemente da sua nacionalidade, aquilo que é um dos mais icónicos símbolos da cultura portuguesa. E agora, silêncio, que se vai cantar o fado.

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