Joana Vasconcelos é uma das mais famosas artistas plásticas portuguesas. Considerada um símbolo de inovação na arte portuguesa, é também reconhecida no estrangeiro por obras que nos oferecem uma visão cúmplice e, ao mesmo tempo, crítica da sociedade. O ID falou com ela sobre ideias e criatividade.
No site, diz que o seu processo criativo “assenta na apropriação, descontextualização e subversão de objetos pré-existentes e realidades do quotidiano”. Fale-nos um pouco sobre este processo.
O meu processo criativo tem início com a observação crítica do que me rodeia. A minha obra inspira-se no dia-a-dia, tendo-se tornado característico da minha linguagem formal o recurso a objetos do quotidiano para criar. Achamos conhecê-los bem, mas estes podem sempre adquirir uma significação nova quando desafiados a servir conceitos ou a questionar o mundo, segundo as associações que realizamos a partir da nossa memória colectiva e individual.
Pode ler-se também que a Joana oferece uma visão cúmplice e, simultaneamente, crítica da sociedade contemporânea e dos vários aspetos que servem de enunciados de identidade coletiva, em especial os que dizem respeito ao estatuto da mulher. Considera-se feminista?
Enquanto mulher, é natural que me debruce sobre a minha condição, pois é nessa perspectiva que vejo o mundo. Contudo, sou pela igualdade de direitos independentemente de idade, religião, cultura, origem ou género.
“Foi um prazer levar Portugal através do fado, das faianças Bordalo Pinheiro, da filigrana portuguesa e do artesanato de Nisa”
A Joana foi a primeira mulher a expor no Palácio de Versalhes (2012). Como foi? Sentiu-se privilegiada enquanto mulher e artista plástica portuguesa?
Foi uma honra imensa e uma grande responsabilidade. O universo de Versalhes esteve sempre presente na minha obra, através do excesso, da experimentação, da dimensão operática, do luxo e do gosto, e, por isso, ver as minhas esculturas dialogarem diretamente com aquele contexto fez todo o sentido. Além disso, foi um prazer levar Portugal através do fado, das faianças Bordalo Pinheiro, da filigrana portuguesa e do artesanato de Nisa, a um espaço tão mítico que acolhe, todos os dias, um público tão vasto e diverso.
É vista pelos críticos como uma artista pop, mas parece pensar as peças numa vertente erudita. A identificação com a cultura popular tem a ver, na sua opinião, com o facto de chegar às “massas”?
A minha obra tem um forte carácter interativo, sendo o papel do público muito importante. Mais do que um mero receptor, o público é um interveniente no discurso e, talvez por ser colocado nessa posição, a obra chegue a uma maioria alargada, que vai além da crítica. Mais, a minha obra tem uma relação direta com a realidade tornando maior a capacidade de identificação por parte do público.
“É fundamental criar, à imagem da nossa época e do nosso tempo, estruturas autossustentáveis, espaços para trabalhar”
Como vê atualmente o futuro das artes em Portugal?
O tecido artístico é fraco, não no sentido daquilo que se projeta, mas no sentido da fragilidade social. É fundamental criar, à imagem da nossa época e do nosso tempo, estruturas autossustentáveis, espaços para trabalhar. Dando bases, estruturas, ateliers, locais para escolas de dança, para teatro, avançar-se. Dando meios, as pessoas podem desenvolver-se economicamente.
Para a Joana, o que é uma boa ideia?
É difícil de definir, pois depende sempre do contexto! Contudo, uma boa ideia será algo que traga novidade, inovação, que funcione, e que traga também mais benefícios do que prejuízos. Aliás, o melhor é que não haja prejuízo algum!
Entrevista realizada por email.
