Cancro da mama: O pesadelo de todas as mulheres

O cancro da mama afeta anualmente cerca de 6.000 mulheres. Em Portugal, cerca de 1.500 morrem desta doença por ano. O principal fator para o seu desenvolvimento é a idade. Como é viver com uma doença terminal?

Texto de Teresa Canelas e Margarida Nortadas

“Inicialmente parecia que não era eu que estava doente, custava-me a acreditar.” As palavras são de Fernanda Santos, de 66 anos, que descobriu que tinha cancro da mama em Junho de 2012, mas podiam ser de qualquer outra pessoa. A notícia é dura, a família fica em choque e toda a sua vida muda.

Fernanda recorda o momento em que contou à família do seu estado de saúde: “Ficaram alarmados e chocados, mas acompanharam-me e deram-me o apoio necessário. Tive a sorte de não estar muito tempo à espera da operação e da radioterapia, o que contribuiu para encarar a situação de uma forma mais positiva.

Fernanda é amiga de Francelina há muitos anos e apoiaram-se mutuamente durante muito tempo. “Quando soube que tinha cancro da mama, decidi ir falar com a Francelina, fazer várias perguntas. Ajudou-me imenso.”

Francelina Santos, de 74 anos, sofre de cancro da mama há 21 anos. Já passou por seis tratamentos de quimioterapia e está a começar o sétimo. Ainda recorda o dia em que recebeu a notícia. “Foi um choque muito grande. Temi pela minha vida e tive receio de não conhecer a minha neta”, conta emocionada. Apesar de ter historial de cancro na família, não estava à espera do diagnóstico. “É um choque muito grande e acaba por mudar muito a nossa vida e de quem nos rodeia.”

O caso de Maria Filipe, de 57 anos, foi diferente. “Soube que tinha cancro em Outubro de 2015. Honestamente, reagi bem e tive a sorte de ter um médico que me soube dar a notícia e confortar-me. A minha família ficou chocada e choraram, mas reagiram logo e apoiaram-me”, conta. “A minha maior preocupação foi lidar com a situação o melhor possível, para não fazer sofrer os meus filhos”, acrescenta.

Maria Canelas de 50 anos descobriu que tinha cancro em Novembro de 2014 através de um rastreio anual. “Foi um choque muito grande, desde os 40 anos que era acompanhada e fazia o rastreio da mama anualmente, não estava à espera que algum dia pudesse vir a ter.”

“Na primeira vez que me olhei ao espelho, foi um choque. Ainda me acho meio esquisita quando vejo a minha imagem, mas reagi bem porque, perante a doença, achei que era um problema menor e continuo a gostar de mim na mesma”, confessa Maria Filipe, que passou por uma mastectomia. Fernanda não retirou a mama por completo, o tumor era pequeno. “A mama tem um tamanho ligeiramente menor, mas a diferença não é muita. Visualmente não me acho diferente.” Francelina demorou mais a habituar-se à nova imagem. “Ainda me lembro quando a minha neta era mais nova e viu a minha cicatriz. Nunca mais vou esquecer o olhar apavorado dela.”

 

 

O que dizem os especialistas

Doença oncológica era, na maior parte das vezes, sinónimo de morte. Hoje, isso não acontece. As taxas de sucesso são cada vez maiores. “A maior parte dos doentes reage mal ao ter a notícia e passa por várias fases, da negação à aceitação, a preocupação com a esperança de vida, o sofrimento e o receio da quimioterapia”, diz Carla (nome fictício), psicóloga  num hospital de Lisboa.

“O apoio psicológico é altamente relevante. Ajuda o paciente a lidar com a doença, a aderir aos tratamentos e a viver com qualidade de vida, reduzindo os medos e angústias. O acompanhamento psicológico não só é importante para o doente como também é para a família.” Mas como se diz a alguém que está a morrer? Carla faz uma pausa. “Dizer a uma pessoa que vai morrer não é fácil”, confessa Carla. Diz que o mais importante é falar abertamente da morte e aliviar o sofrimento: “Baseia-se sempre no respeito, sentimentos, desejos e espiritualidade dos doentes, de modo a aceitar a finitude, facilitar a comunicação e despedida adequada das pessoas mais próximas, e organizar o fim deste ciclo de vida.”

Susana (nome fictício), de 43 anos, é enfermeira no mesmo hospital. Lida com pacientes oncológicos há nove anos e explica o que faz diariamente: “Administramos os tratamentos de quimioterapia, assim como a explicação do procedimento, os cuidados a ter, os efeitos secundários e consultas não programadas, para controlar alguns desses efeitos que possam surgir.”

O papel de enfermeira também passa muito pelo apoio psicológico e nem sempre é fácil chegar a todos os doentes e, por vezes, aos familiares. Uns falam abertamente e são curiosos, outros retraem-se e sofrem para dentro. Aqui, o trabalho do enfermeiro é ajudar a “deitar cá para fora” para chegar ao cerne da questão. “Normalmente, eles vêm acompanhados pela família e gostam de falar. Muitas vezes desabafam mais com enfermeiros do que com os psicólogos.” Mas será que existe algum tipo de preparação para lidar com doentes oncológicos? Não. “Nunca se está preparado, acima de tudo temos de nos sentir bem e lidar psicologicamente com estas situações.”

 

 

O “demónio” da quimioterapia

Os efeitos secundários da quimioterapia incluem náuseas, vómitos, fraqueza e uma preocupação da maior parte das mulheres: a queda de cabelo. “Os pacientes têm muito medo dos efeitos secundários.  Nem todos reagem da mesma maneira”, diz Susana.

Francelina está atualmente a realizar o tratamento pela sétima vez. Todas elas foram dolorosas. “Uma pessoa nunca se habitua, independentemente das vezes que a fazemos. A perda do cabelo é horrível. É uma parte importante da nossa estética e da nossa imagem.”

Maria Canelas não pode ser operada e perder o cabelo foi muito doloroso. “Não conseguia sair de casa, fazia-me muita confusão as pessoas olharem para mim, muitas vezes com pena. O facto de ter perdido as sobrancelhas e as pestanas fez com que não conseguisse ter expressão facial.” O desgaste da quimioterapia é muito grande e, por vezes, obriga os doentes a necessitarem de ajuda. “É muito desgastante. Em cada tratamento, sinto-me mais fraca e debilitada, preciso de ajuda da minha família para as atividades mais básicas do dia.”

Enfrentando todos os obstáculos, estas quatro sobreviventes vivem as suas vidas com tranquilidade. “Emocionalmente sinto-me diferente, mais do que fisicamente. Na maior parte do tempo, nem me lembro que tive este problema. Sinto-me bem e faço a minha vida normal, nunca fui de me ligar às doenças. Tento aproveitar a vida ao máximo!”, diz Maria Filipe, mostrando-se positiva e com vontade de lutar. “Já passei por tanto e ainda aqui estou. Penso sempre que é só mais um (tratamento) e que vou ultrapassar isto”, confessa Francelina. “Não vai ser isto que me vai mandar abaixo”, diz Fernanda.

Apesar do número de casos que todos os anos surgem, também se pode dizer que a esperança aumentou. Isto deve-se aos tratamentos inovadores e a um constante estudo científico, vendo neste momento muitas mulheres a sua esperança de vida aumentada. Os cuidados paliativos são importantes numa fase terminal desta doença, quer para o doente como para os seus familiares. Têm sido desenvolvidos recursos, mas ainda há muito para fazer, uma vez que os centros de cuidados paliativos são escassos tendo em conta a necessidade.

Para todas estas mulheres importa acreditar que existe um amanhã e que não estão sozinhas na sua luta. Médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e voluntários dão um sorriso todos os dias e ajudam estas e muitas outras mulheres a acreditar que esta é uma nova forma de vida, que devem viver intensamente e acreditar que pode existir um futuro.

MEDICO

NOTA: A enfermeira e a psicóloga não foram identificadas, pois a instituição para onde trabalham não permitiu que o local e os seus nomes fossem revelados.

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