Catarina Rodrigues: “Aquilo que nos separa da pessoa que nos lê é muito pouco”

Jornalista no Observador, defensora das minorias e da luta pela igualdade de direitos, apaixonada por histórias, Catarina Rodrigues revela um pouco sobre o seu percurso e sobre a recente polémica motivada por uma das suas reportagens, que levou à demissão do sub-director do Colégio Militar.

 

Sei que se licenciou em Ciência Política e Relações Internacionais e fez uma pós-graduação em Jornalismo, ambos na Universidade Nova de Lisboa. Porque escolheu esta profissão? Sempre quis ser jornalista?

Sim. Lembro-me de, em pequenina, fazer e ensaiar entrevistas, fazer imensas perguntas às pessoas. Às vezes, os meus pais até me diziam que era um bocadinho inoportuna, perguntava tudo. Ainda hoje sou assim e acho que isso é bom: assusta muitas vezes algumas pessoas, mas é bom perguntares tudo. Sempre gostei muito de comunicar, de falar e de ler reportagens, acho que o jornalismo é uma arte. Quando estás a ler uma reportagem, se for boa, faz-te entrar naquelas palavras, naquela história. A capacidade do jornalismo escrito é essa, é com as palavras conseguir criar um cenário.

Tive uma fase em que queria ser advogada, depois deputada, porque sempre fui muito de causas sociais e direitos humanos. Se calhar, também por isso é que tenho feito muita coisa de igualdade de género e direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero). Sempre fui defensora das minorias e dos direitos humanos, e foi esta mistura entre gostar de comunicar, gostar de falar e querer fazer parte da luta pela igualdade. Sempre quis fazer jornalismo, não sabia bem se televisivo, se escrito, mas era sobretudo contar histórias, que é aquilo que mais gosto de fazer. Contar histórias, tocar pessoas, denunciar realidades que nem toda a gente tem acesso mas nós, jornalistas, temos a missão de o fazer.

IMG_7156

Trabalha como jornalista no Observador há dois anos. Como decorreu o processo de selecção de entrada?

Estava a tirar o mestrado e uma pós-graduação ao mesmo tempo, comecei em Setembro. Em Janeiro, apareceu um anúncio para um jornal que ia existir, ninguém sabia o que era, nem se sabia o nome, nem se sabia bem o que ia ser. Como queria muito começar a trabalhar, inscrevi-me. Mandei uma carta de motivação para ir a uma entrevista, a dizer “por favor, aceitem-me, eu vou ser a melhor jornalista que vocês podem contratar”, para ver se conseguia alguma coisa, começar a estagiar, queria era pôr as mãos na massa e experimentar. Ver se realmente tinha jeito ou se era simplesmente um sonho.

Chamaram-me para ir à entrevista, na altura, foi com os dois diretores do Observador. Quando cheguei lá, disseram-me: “Olha, tu estás aqui só por causa da carta de motivação que mandaste, mas já temos a equipa cheia.” E então, basicamente, dei tudo de mim. Perguntaram-me o que é que lia, o que é que não lia, qual tinha sido a última grande reportagem que tinha lido, porque queria ser jornalista, o que achava que podia dar ao projeto – um projeto que ninguém sabia o que ia ser.

Hoje, sabemos que é um projeto de sucesso, que tem bons temas, bons jornalistas, um grande impacto, tem um site com um design limpinho, que tem agradado às pessoas e isso vê-se nos números. Na altura, disseram-me: “Se tu ficares, ligamos-te até daqui a duas semanas.” E não ligaram. Ligaram na terceira semana a dizer que tinha ficado. Começámos a trabalhar em Março, estivemos aqui desde ver a primeira cadeira a entrar na redação até pensar o que cada pessoa ia fazer, quem iam ser os editores, gestores de redes sociais, como é que ia ser a organização, os horários, as escalas, a cozinha, a primeira televisão, tudo. É começar uma coisa do zero.

Na sua opinião, quais são as principais inovações que o Observador trouxe ao jornalismo português?

Acho que é a linguagem, é muito direta, muito simples. Não somos presunçosos, não queremos mostrar que somos intelectuais e percebemos tudo. Queremos explicar as coisas às pessoas: quando não sabemos, assumimos que não sabemos. Explicamos as coisas de forma muito clara, daí os formatos inovadores que temos, como os explicadores, os “explica-me”, que são aqueles vídeos de 30 segundos.

O próprio site é muito limpo, não há grandes cores. A informação, as reportagens, os vídeos e os textos valem por si. A própria equipa também é muito jovem e isso é bom: faz com que as ideias sejam mais rasgadas, mais inovadoras, aqui há muita liberdade para fazermos coisas fora do óbvio.

Fazemos reportagens que acho que mais ninguém faz, por onde mais ninguém faz, e respondemos muito às pessoas. Recebo e-mails de pessoas que me leram, a fazer uma correção, a dar uma sugestão de reportagem, a elogiar ou a criticar, e nós agradecemos aquele feedback. Aquilo que nos separa da pessoa que nos lê é muito pouco e acho que isso é muito importante, acho que esse é o caminho.

No Observador, os temas que a Catarina trabalha são sugeridos por si ou resultam de um processo de discussão coletiva, em redação?

Sim, resultam muito de mim. Comecei por fazer coisas muito ligadas às minorias, igualdade de género, direitos LGBT e, agora, tenho muito esse foco. Uma redação está dividida por áreas: há jornalistas de política, jornalistas que fazem a economia, jornalistas que fazem desporto, há outros que fazem cultura. Eu, como tenho feito muito essa área, agora é um bocadinho uma simbiose. Sempre que há alguma coisa na área, proponho e faço; quando existe alguma coisa nessa área, passam para mim. Não há um critério muito rígido, é uma troca de informação que vai surgindo e vamos-nos adaptando.

“Um dos maiores trunfos de ser jornalista é ser curioso”

Qual foi o seu primeiro trabalho como jornalista? Sentiu dificuldades? Estava nervosa?

Sim. Aquilo que me deixou mais nervosa foram aqueles primeiros meses antes de arrancar o Observador, de Março a Maio. Tivemos uma fase em que eu e outras pessoas mais novas, que nunca tinham feito jornalismo profissional, fazíamos notícias e reportagens e metade ia para o lixo. Os nossos editores eram muito duros (e ainda hoje são), e acho que isso é bom.

Estava nervosa porque, quando és jovem, queres muito provar que sabes aquilo que estás a fazer e que tens talento, mas não sabes muito bem como o hás de fazer. Queres fazer logo tudo, queres mostrar tudo e fazer textos com as palavras mais “fora” possível. No início, conta muito o talento, mas também conta muito saberes que não sabes nada e que podes ter lá aquela semente, mas tens que ouvir quem está acima de ti, quem já passou por isto há muito tempo.

O nervosismo é normal. Ainda hoje, quando vou para reportagem, estou muito nervosa. Antes de ir para reportagem, preparo-me e tenho uma ideia das perguntas que vou fazer, pessoas com quem quero falar e daquilo que vou ver. Mas, depois, a pressão é conseguir captar tudo o que está ali, ter que tirar todos os pormenores, conseguir tirar o melhor daqui e conseguir fazer a pergunta certa. A chave é relaxar, confiar, absorver e deixar a curiosidade falar por si.

Para mim, um dos maiores trunfos de ser jornalista é ser curioso, é meio caminho andado para o jornalismo. O ser curioso é querer saber aquilo que outra pessoa não quer saber. Com essa curiosidade, consegues arrancar pormenores e histórias que, se calhar, nunca ninguém tinha reparado.

IMG_7179

De todos os trabalhos que fez, há algum em especial que a tenha marcado?

Fiz um em Outubro de 2014, ainda nem há um ano estava no Observador, e esse marcou-me porque foi o primeiro trabalho que fiz. Foi uma reportagem sobre uma criança transgénero, que se chama “Olá, eu sou o João e eu gosto de brincar com coisas de menina”. Marcou-me porque é sobre uma criança que nasceu menino mas que se sente menina, que brinca com vestidos de princesa e a sua identidade de género é de rapariga.

Falei com a mãe, que me contou a história toda e é uma história muito dura, não para a criança em si, mas para a sociedade onde essa criança está envolvida. Recebi um prémio de uma associação com essa reportagem e essa associação conhece outras crianças como o João, que estão igualmente numa sociedade que não as compreende e não as aceita. Quando fiz essa reportagem, na altura, ainda não se falava quase sobre crianças transgénero e recebi muitos e-mails, muito feedback de psicólogas, de mães, de terapeutas, de pessoas a agradecerem-me por falar naquele assunto e por desmistificar aquilo. E pensei que, pelo menos, já mexi com a cabeça de alguém, Quando és jornalista, isso é uma coisa que te marca também.

Quando és jornalista, tens um poder. Se te esforçares naquilo, se conseguires captar todos os pormenores, se tiveres uma história perfeita, se a souberes a contar, consegues mudar aquilo que uma pessoa está a pensar, consegues mexer com a cabecinha dela. E isso é um poder muito importante, é uma responsabilidade.

Há pouco tempo fez uma reportagem sobre a vida no Colégio Militar que levou o ministro da defesa, Azeredo Lopes, a exigir explicações ao general Carlos Jerónimo por discriminação de alunos devido à sua orientação sexual, acabando este por se demitir. Esperava um desfecho deste género?

Não, não esperava. Sabia que a informação que tinha em mãos ia ser algo polémica. Tive a noção que aquilo que o sub-director do Colégio Militar me estava a dizer era inacreditável, mas também estava a ter noção que, para ele, aquilo era normal.

Quando fui fazer a reportagem, já sabia que me ia deparar com essas informações, tens de dizer às pessoas que aquele mundo funciona daquela maneira. É importante para a sociedade saber que aquela instituição funciona com aqueles ideais e aquelas formas de agir. Esperava ter algumas reações deste género, ter algumas declarações de partidos, esperava que algumas pessoas da sociedade e do espaço público se levantassem contra aquilo que foi dito, mas não esperava esta reação tão forte.

Até hoje, nunca se tinha falado sobre a discriminação de alunos homossexuais que existe naquela escola, hoje falou-se e hoje toda a gente sabe. Uma pessoa demitiu-se por causa daquilo, isto é o jornalismo a fazer a sociedade mexer.

Numa sociedade que caminha para a igualdade, com uma Constituição que diz que todos somos iguais independentemente das nossas diferenças, aquilo é chocante. E acabou da forma que acabou mas, é assim, quando tens uma informação destas em mãos, tens que divulgar, as pessoas têm que saber daquilo. Tu não serves esta ou aquela figura, esta ou aquela instituição, não trabalhas para o ministro, nem para aquela pessoa importante. Serves a sociedade, trabalhas para o público. E se aquela informação é importante, tens de divulgar e não podes ter medo.

“Ser jornalista hoje é dominar as redes sociais, dominar as ferramentas multimédia”

O jornalismo tem vindo a sofrer alterações ao longo dos anos. Como se trabalha em jornalismo nos dias de hoje?

Nos dias de hoje, é preciso seres multiplataforma. Tens que saber escrever, tens que dominar a língua e tens que ler muito. Ler muita revista, muito texto, muita reportagem multimédia, porque há sempre formas de escrever mais engraçadas que aprendes pela forma como os outros escrevem.

Para além de saber escrever, também é muito importante saber agarrar no telemóvel e tirar uma fotografia a um incêndio que está a acontecer, porque idealmente terias um fotógrafo que ia contigo mas, se não houver nenhum, tens que pegar no telemóvel e tirar a fotografia. Se vais à Assembleia e deparas-te com uma declaração de alguém importante, mesmo sendo jornalista de escrita e não operadora de câmara, tens que saber fazer um vídeo de 30 segundos e, depois, colocá-lo na peça.

As redes sociais também são muito importantes. Deves ter Twitter, que é uma rede social muito de notícias e opiniões. Já consegui algumas notícias a partir do Twitter, de pessoas que escrevem opiniões e depois consegues fazer-lhes perguntas e daí consegues ter uma história. E é importante até para partilhar notícias tuas ou dos outros. Eu partilho lá muitos trabalhos meus. O Facebook também podes aproveitar para divulgar uma ou outra grande reportagem tua ou um ou outro evento onde vais participar.

Ser jornalista hoje é dominar as redes sociais, dominar ferramentas multimédia, fazer vídeos, fazer fotografias, fazer áudios e também ter algumas competências de infografia. Saber fazer um gráfico com dados, para que a peça seja mais bonita e não fique só um texto corrido, porque depois as pessoas nunca têm paciência para te ler até ao fim. É normal. Muitas vezes, começo a ler reportagens de outros e não as leio até ao fim, só quando preciso mesmo.

O que mais gosta nesta profissão? O que a desafia mais?

O que me faz vir trabalhar todos os dias é pensar que um dia não vai ser igual ao outro. Já me aconteceu ir muito entusiasmada para uma reportagem, chegar lá e conseguir uma coisa completamente diferente daquela que estava à espera ou não conseguir tanto daquela pessoa como achava que ia conseguir. Já aconteceu ir sem expectativas nenhumas e conseguir uma grande história.

O que me desafia é saber que há sempre histórias para serem contadas, desde a pessoa que passa por ti na rua, até ao Presidente da República, há sempre algo que não foi revelado sobre essa pessoa. E há também sempre alguém para inspirar, sempre uma história nova para contar, as histórias nunca se vão esgotar.

Uma pessoa com 90 anos que já foi entrevistada milhares de vezes, se a entrevistares agora, vais descobrir alguma coisa que nunca ninguém descobriu. E depois há sempre alguém que lê aquilo que escreves e ficará a pensar naquilo que escreves, mesmo que seja a tua mãe. O objetivo tem de ser sempre inspirar alguém, mexer com alguém, contar a história de alguém e fazer o mundo girar com o teu poder da palavra, da escrita e da voz.

Que conselhos gostaria de dar a futuros jornalistas?

Eu sei que isto é um bocado clichê. Quando me diziam a mim, (e não foi assim há tanto tempo, foi há dois, três anos), também achava que era um bocado clichê, mas acho que é mesmo verdade. Tens de acreditar muito em ti, não podes desistir. Sei que achas que há muitos como tu, muitos jovens jornalistas, mas, se tens um talento especial, deves fazer com que ele aconteça. Mas isso depende de ti: tens que fazer com que as pessoas te queiram contratar, tens de ir atrás, tens de fazer propostas, tens de estar atenta à história, tens de propor-te a estágios, nunca podes desistir. Se queres mesmo fazer isto da tua vida, há espaço para ti. Mas tens de provar às pessoas que é importante que elas te tenham. E é isso: tentar sempre.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s